Blog Della

Blog pessoal da Bru desde 2012. Considere que escrevi alguns posts no auge da minha adolescência.

Bruna Della
Bruna Della, 29 anos. Entre a arte, a espiritualidade e a saúde emocional, compartilho reflexões sobre vida adulta, autocuidado, rotina acolhedora e transformação pessoal. Professora de inglês/arte em transição para a arteterapia, umbandista, atriz e escritora de experiências cotidianas desde os 15 anos.

Contos de fadas para adultos: por que os contos ainda falam tanto sobre nós?




 Você abre o Netflix numa noite qualquer, escolhe uma animação por impulso e, de repente, sente algo apertar no peito que você não consegue nomear direito. Não é saudade da infância. É outra coisa. É reconhecimento. Os contos de fada chegaram à sua vida antes da sua linguagem racional, antes dos seus filtros adultos, e plantaram dentro de você mapas emocionais que você ainda usa sem perceber. Esses mapas dizem como o amor funciona, o que significa ser uma boa mulher, o que acontece com quem não obedece.

Aqui no Blog Della, essa conversa aparece o tempo todo: mulheres que percebem que ainda esperam ser "vistas" antes de falar, que silenciam o que sentem para manter a paz, que acordam um dia sentindo que viveram uma vida que não era bem a delas. Este artigo não é sobre infância. É sobre o que ficou depois que a história terminou.

Por que os contos de fada chegaram antes da razão

As histórias que conhecemos como contos de fadas clássicos não nasceram como entretenimento para crianças. Os Irmãos Grimm e Charles Perrault não inventaram essas narrativas: eles coletaram e registraram contos populares que já circulavam oralmente entre o povo, passados de geração em geração como transmissão coletiva de saberes sobre medo, perda, passagem e transformação. Eram relatos que falavam do que não podia ser dito de forma direta.

Quando ouvimos uma história na primeira infância, ela não passa pelo filtro crítico. Ela vai direto para a estrutura emocional. A criança não analisa Cinderela: ela sente Cinderela. E o que é sentido antes de ser compreendido não some com o tempo, ele vira crença. Isso ajuda a explicar por que tantas mulheres adultas, altamente conscientes e inteligentes, ainda repetem padrões que elas mesmas conseguem identificar e nomear, mas não conseguem parar.

Para muitas meninas, os contos de fada foram a primeira "instrução" sobre o que significa ser feminina: ser bela, ser paciente, ser bondosa, esperar, confiar, não questionar. Isso não foi ensinado como regra explícita, mas como narrativa emocional repetida. E narrativas repetidas se tornam crença. Crenças habitam o corpo antes de habitarem o pensamento.

As princesas clássicas e os padrões que elas ensinaram

Cinderela e o silêncio da virtude

Cinderela não é só uma história de sapato de cristal. É a narrativa de uma mulher que suporta situações profundamente injustas esperando que sua virtude silenciosa seja reconhecida por forças externas: a fada madrinha, o príncipe, o destino. Ela não confronta, não sai, não exige. Ela espera. Quantas mulheres adultas ainda operam nesse padrão no trabalho, nos relacionamentos, na família? A crença de que "se eu for boa o suficiente, as coisas vão se resolver" tem endereço certo: é a Cinderela que mora dentro.

A Bela Adormecida, A Pequena Sereia e Rapunzel

A Bela Adormecida e A Pequena Sereia falam, de formas diferentes, do mesmo padrão: a anestesia de si. A Bela Adormecida entra em torpor e aguarda o resgate sem nenhuma participação ativa no próprio destino. A Pequena Sereia, por sua vez, abre mão da voz para pertencer a um mundo que não é o seu. Em algum momento da sua vida, você silenciou o que sentia para manter a paz ou para ser aceita por alguém? Esse silêncio tem um nome. Ele tem um conto.

A torre de Rapunzel não é só uma prisão externa. É também o espaço interno onde muitas mulheres se recolhem por medo de julgamento, de exposição, de não serem suficientes lá fora. O príncipe que "salva" pode virar qualquer dependência externa que promete finalmente nos tirar de nós mesmas: um relacionamento, um emprego, um reconhecimento, uma aprovação. A torre fica confortável com o tempo. É o perigo que ela representa.

Os arquétipos que vivem além das histórias

Carl Jung e sua discípula Marie-Louise von Franz estudaram os contos de fada como expressões do inconsciente coletivo: padrões universais da psique que aparecem em sonhos, mitos e narrativas simbólicas ao redor do mundo. Para eles, personagens como a donzela, a madrasta, a bruxa e a velha sábia não são apenas figuras literárias: são funções psíquicas. Elas representam aspectos do feminino que existem dentro de cada pessoa.

Em termos práticos, isso significa que a madrasta invejosa pode representar a parte de você que sabota seus próprios planos. A fada madrinha pode ser a voz interna que você só ouve em momentos de crise. A princesa adormecida pode ser a versão de você que aprendeu que ficar quieta é mais seguro do que se mover. Quando esses padrões não têm consciência, eles se manifestam na vida real como comportamentos repetidos que você não consegue explicar direito.

Os exemplos concretos são reconhecíveis: a mulher que sempre "salva" os outros e nunca pede ajuda, que se apaga nos grupos e espera ser convidada a falar, que escolhe parceiros que precisam ser "resgatados". Clarissa Pinkola Estés, autora de Mulheres que Correm com os Lobos, chamaria esses padrões de silenciamento do instinto. Von Franz, em sua obra A Interpretação dos Contos de Fadas, os chamaria de processos de individuação incompletos. Nenhuma das duas diria que é fraqueza. As duas diriam que é começo. Estudos sobre a função social das histórias e suas leituras podem ser conferidos em trabalhos como Histórias Contadas Entrelinhas.

A diferença entre entender e mudar

Muitas mulheres já sabem que repetem padrões. Já leram sobre arquétipos, já fizeram terapia, já tiveram os insights. Já conseguem apontar exatamente qual conto de fadas está em ação dentro delas. E ainda assim o comportamento continua. Isso acontece porque o padrão não está armazenado só no pensamento: está no corpo, na respiração, no jeito de segurar o maxilar quando alguém faz uma crítica, na tensão nos ombros antes de pedir algo.

A cognição sozinha não alcança esse lugar. Você pode entender a Cinderela completamente, dissertar sobre ela, reconhecê-la em você, e ainda assim acordar esperando que alguém finalmente perceba o quanto você faz sem precisar ser pedido. O entendimento intelectual é o primeiro passo, mas não é o movimento que transforma.

Por que a expressão artística chega onde a análise não chega

É aqui que a expressão artística entra como caminho real, não como decoração. Quando uma mulher desenha a Cinderela que vive dentro dela, quando dança o torpor da Bela Adormecida, quando escreve as releituras dos contos de fada da própria vida com um final diferente, algo se move que a explicação verbal não conseguiria mover. A arte acessa camadas mais profundas da experiência emocional porque fala a mesma língua em que o padrão foi instalado: a língua das imagens, do símbolo, do corpo, da sensação antes da palavra.

Vivências com contos de fadas: desconstruindo com arte e presença

A arteterapeuta Bruna Della conduz vivências online onde mulheres revisitam histórias clássicas não para analisá-las, mas para habitá-las com o corpo, com a arte e com honestidade. Não é palestra, não é curso teórico: é processo. Cada encontro parte de um conto e usa recursos artísticos para que cada participante encontre, naquele enredo, o eco da própria história.

O formato cuida do corpo e da emoção ao mesmo tempo: a escuta do conto, a proposta de criação artística com materiais simples que qualquer pessoa tem em casa, e o espaço de compartilhamento sem julgamento. O processo acontece em grupo, o que cria uma dimensão importante que a terapia individual raramente oferece: perceber que outras mulheres carregam narrativas parecidas reduz o isolamento e a vergonha. Descobrir que você não é a única Pequena Sereia da sala muda algo. A relevância desses encontros no desenvolvimento emocional e social é discutida em artigos como a análise sobre a importância dos contos de fadas no desenvolvimento da criança.

Se você sente curiosidade em vivenciar um desses encontros, procure @arteterapias.online para saber mais sobre os próximos temas e datas. Cada vivência abre uma camada diferente.

O mapa que você já tem

Revisitar os contos de fada como adulta não é regressão nem fraqueza: é arqueologia emocional. É perguntar de onde veio a crença de que você precisa merecer o amor. É rastrear o silêncio que você aprendeu a chamar de paciência. É olhar para a torre em que você mora e perguntar se a porta estava trancada por fora ou se você mesma foi segurando a maçaneta.

Os contos clássicos não são os vilões dessa história. Eles são um mapa. E mapas só têm valor se você se dispõe a olhá-los com honestidade, sem precisar defender ou condenar o caminho que percorreu até aqui. A pergunta não é "qual princesa você é?". A pergunta real é: que final você quer escrever desta vez?

Quer reescrever o seu? Acompanhe as próximas vivências em @arteterapias.online e descubra qual conto está esperando por você.

Se quiser recursos práticos para trabalhar emoções com crianças, uma sugestão de atividade lúdica e acessível é a Caixa da Fada dos Sentimentos, que pode ser adaptada para diferentes idades e contextos.

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